Feijão Queimado
- Hélio Silva

- 5 de jun.
- 4 min de leitura
Um conto de Hélio Silva

Hoje está uma tarde agradável. Um sol tranquilo entra, coado de verde pelas plantas no jardim da cozinha. Eu estou aqui, aproveitando a folga, fazendo um lanche leve, sanduíche natural, que a dieta pede. Aproveito, também, para pôr o feijão no fogo.
Meu filho está na sala, quieto no sofá, lendo seu “A Hora da Estrela”. É tão estranho vê-lo assim, sem estar com a cara enfiada no celular. Ele que não era adepto da leitura, com um livro tão complicado para seus quinze anos. Nem sei se ele está entendendo o que lê. Talvez tenha sido por influência minha, por ser mãe professora. Talvez eu esteja apenas tentando simplificar as coisas.
Às vezes, as pessoas pegam gosto pelas coisas. E eu gostaria de captar este momento, o momento exato em que essa mudança acontece, em que uma coisa vira outra, em que o feijão fica pronto.
Ele está me fazendo lembrar minha avó. Dona Celeste, depois de deixar a filha bem estabelecida, quase não era vista em casa. Vez por outra contratava alguém para cuidar do jardim, as plantas viviam por conta própria enquanto ela mesma vivia entre taças e brindes. Sua jovialidade enganava a todos: ninguém desconfiava de seus quase setenta anos.
Um dia, porém, meus pais já tinham ido trabalhar e eu ia para a escola, quando fui surpreendida com uma novidade.
A casa de minha avó ficava em frente, no amplo quintal, e ali estava ela, com um vaso grande diante de si. Dentro, uma planta já crescida e uma flor branca bem na ponta. Usava um avental roxo com bordas laranjas e estava cuidando dessa flor. Dedos de luvas amarelas saíam do bolso do avental. Uma pequena pazinha estava em sua mão direita e uma taça de vinho em sua mão esquerda.
Eu lhe pedi a bênção, mas fiquei parada sem acreditar no que via.
– Ora, ora – disse Dona Celeste – Veja se não temos uma curiosa aqui?
Ela sorria de forma convidativa para mim. Eu contava dezessete anos nesta época. Apenas um ano e todo o período escolar acabaria. Época de mudanças. Mas mudanças eram esperadas para mim e não para minha avó. Curiosa, me aproximei:
– Que planta é essa, vó?
– Essa é uma gardênia – ela tomou um gole da taça de vinho. Voltou à varanda, pôs a taça numa mesa e veio com um borrifador branco: – Já que você está parada aí, veja se ajuda um pouco. Dê umas borrifadas aí na base, porque gardênia dá praga por qualquer coisinha.
Eu dei as borrifadas, enquanto ela pegou uma pazinha com um fedorento pó branco. Até hoje não sei o que era aquilo. Tenho quem cuide do jardim aqui de casa, pois eu não dou para essas coisas. Se bem que, minha avó também não era afeita a essas atividades e lá estava ela, cedinho me mandando para a escola:
– Vai, vai, que senão atrasa na aula. Deixa eu ficar aqui com minha nova amiguinha.
Eu queria perguntar mais sobre a planta e, principalmente, sobre a mudança de minha avó em relação ao jardim. Porém, minhas dificuldades em português acabaram prendendo minha atenção por todo aquele semestre.
Esta dedicação, anos depois, me daria uma boa profissão, mas, naquele tempo, fiquei sem respostas claras para a repentina mudança de hábitos de Dona Celeste:
– Deixe de querer fofocar da minha vida, Belinha – ela me dizia, rindo. Sempre rindo, com a gardênia. E depois, com a orquídea. E depois, cuidando do gramado. E, então, das samambaias e das outras plantas do jardim. Até que ela mesma passou a se habituar ao avental e a ajudar o jardineiro que ela contratava.
E eu fiquei com uma ideia fixa na mente: a de que ela tinha começado a se interessar por plantas justo por causa daquele jardineiro, um senhor simpático, de barba grisalha e bem apessoado. Sempre risonho, que nem ela. Ambos trabalhando para florir o jardim.
Mas certas conclusões têm pernas rápidas demais... E o cheiro das flores começa a se distorcer na minha mente...
– MÃE – meu filho grita lá da sala.
– TÁ BOM – eu grito daqui – Já fechei o fogo!
Então era este o cheiro invasivo... Às vezes eu me distraio em meus pensamentos. Justo eu, que detesto feijão queimado. Ai, ai... Olha o que Dona Celeste me fez fazer.
– Quer ajuda aí? – ele aparece na porta, com olho arregalado para a panela. Ainda está com o livro na mão.
– Não precisa, filho. Só queimou um pouco...
Eu levanto o dedo indicador para o livro. Quero matar minha curiosidade:
– Por que você pegou esse livro para ler?
Ele ficou parado um instante, olhando com o cenho fechado. A pergunta lhe parecia difícil. E sua resposta não respondeu nada.
– A senhora não disse que me emprestava qualquer livro da sua biblioteca?
– Sim. Mas... é só isso mesmo?
– Ué? Que pergunta, do nada?
– Não, tudo bem. Pode ir lá. Obrigada, estou de olho no feijão.
– De nada – ele disse, voltando para a sala, voltando para seu livro.
Isso deve ser coisa de alguma garota da escola dele. Que bom que ele tenha encontrado uma moça assim.
Imagino como será a reação dele quando chegar na cena do atropelamento. Tão repentino, mas ao mesmo tempo, tão anunciado na narrativa...
Droga. Queimou mesmo. Vou ter que fazer o feijão de novo. Da próxima, abaixo um pouco o fogo.
Leia mais contos de Hélio Silva.

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Excelente, conto !
Excelente , Conto ! Muito reflexivo sobre a mudança e como tempo voa , parabéns !!