A Perfeição em Cada Esquina
Um Conto de Hélio Silva

Me pediram para escrever sobre o porquê de eu ter me tornado um crítico musical. E eu estou aqui, parado diante da tela em branco. É difícil dizer ao certo o que me levou a esse caminho. Uma série de fatores, eu acho. Deixe-me ver...
Música, para mim, não era algo de grande importância, nada além de um fundo agradável para os ouvidos. As coisas mudaram bem tarde comigo, já na época da faculdade. Justo dessa época, um fato se destaca – talvez isso ajude a explicar alguma coisa.
Faz muito tempo, agora que olho para trás. A primeira vez que eu pesquisei na internet por uma banda que eu não conhecia ainda – lembro da sensação como se fosse hoje. E o que exatamente me levou a isso? Bem, eu poderia citar as músicas presentes na minha casa, a influência de alguns amigos, ou o desgosto de certos casos amorosos, mas eu não estaria fazendo jus aos fatos. Não foi isso o que me fez sentar na cadeira naquela noite e varar a madrugada como se eu não fosse humano, como se eu não precisasse dormir.
Foi algo estranho. Realmente estranho.
Quer dizer... Não é todo mundo que se depara com a Perfeição, na vida. Sim, numa esquina, a Perfeição mesmo.
Ah! Você não acredita, não é? Você deve ser daqueles que pensa que nada pode ser perfeito, não neste mundo. Pois é. Ha, ha, ha! Você é exatamente como eu fui. Não renegue as belezas deste mundo. Um dia você vai estar andando à noite e vai virar uma esquina. Espero que dê sorte de ver o que eu vi. Ou melhor, perceber o que eu percebi, porque, bem dizer, "ver" é simplificar as coisas.
O que se apossou de mim foi algo muito maior que apenas minha visão poderia processar.
Eu tinha acabado de sair da faculdade, o professor da última turma tinha faltado. Já era noite, mas ainda estava cedo. Segui em caminhada até a casinha onde estava morando na época, não muito longe. Apenas uma caminhada normal em mais um dia cansativo sob as fortes luzes brancas nos postes da rua. Até que, ao passar por um cruzamento, virei à direita e de imediato me chamou a atenção um poste de luz amarela na calçada. Aquilo era realmente atípico, para um caminho bem conhecido por mim.
Me aproximei, a passos desconfiados. Debaixo do poste, ali estava um radinho de pilha, todo quebrado. Quem teria deixado ele ali no chão, perto da calçada, não faço a menor ideia. Só lembro de ficar parado com curiosidade. Observei-o por alguns segundos, fascinado com seu formato arredondado, sua antena torta e seus circuitos se exibindo por entre rachaduras no acabamento. Eu sorri de mim mesmo, um bobo parado no meio da rua, quando ele resolveu emitir seu último sinal, como uma última mensagem antes de perder a energia.
E isto saiu de seus alto-falantes:
Três acordes. Apenas três acordes de piano e o começo de uma voz... Depois, chiado. Nada além de chiado.
Peguei o radinho do chão, para tentar mexer no dial. Assim que meus dedos encostaram nele, acabou-se o som. Virei-o à procura da pilha, mas encontrei apenas os encaixes vazios. Olhei em volta – eu juro que olhei – e não vi nada. Levei o radinho para casa, uma quitinete pela qual eu pagava um aluguel razoável na época. Deixei ele sobre a mesa e, quando vi a hora, já era meia-noite... Na hora, eu duvidei de minha sanidade. Podia jurar que tinha saído da faculdade às sete da noite. Mas o relógio não mentia, nem os acordes...
Aqueles acordes não saíram da minha cabeça. Na verdade, era mais que isso: eles estavam começando a se alojar, como eu fizera ao trazer minhas coisas para aquela casinha. Eram poucas coisas, assim como aqueles eram poucos acordes. Mas em casas vazias, até passos de formiga fazem ecos. Agora, imagine o que aquele piano não fazia nas paredes da minha cabeça!
E a voz, só o comecinho, como um sussurro de uma promessa. Eu não podia esquecer aquilo, nem podia lembrar de mais nada. As matérias que eu tinha estudado, as pessoas com quem eu tinha falado naquele dia, tudo chegava para os cantos a fim de dar espaço àqueles fragmentos musicais.
Após o banho, eu me sentei em frente ao computador com o peso de uma orquestra sobre meus ombros. E, sem nem dar por mim, acatei a missão: eu tinha que encontrar a tal música. As aulas que aguardassem.
E assim eu fiz. Mergulhei na minha busca, passei a madrugada, vi o sol nascer e entrar pela minha janela. Mas não ouvi o canto dos pássaros, nem o ronco dos primeiros motores, nem os primeiros bocejos dos vizinhos. Meus fones baratos foram meus novos pés nas veredas da música... E como eu queria encontrar aquela voz.
Era uma voz feminina? Sim. Qual o gênero da música? Talvez rock, talvez pop. E o que, exatamente, é o pop? A cada pergunta, milhares de novas dúvidas e novos caminhos.
Resultado? Meu próprio corpo deu um jeito de me levar para a cama. E eu não lembro de ter sonhado com imagens. Apenas cochilei na acústica, percebendo os mesmos acordes crescendo, distorcidos em minha mente. Mas, agora, eles estavam misturados a outras harmonias, estranhas guitarras e vocais, uma grande sopa de gêneros e ondas sonoras que dançavam em volta do meu Graal sonoro.
Só que... Você deve estar irritado comigo, não é? A esta altura, eu não respondi nada do que me pediram. Como eu me tornei crítico musical. Escreva, homem! Bem...
Acontece que eu não achei aquela faixa preciosa naquele dia. Nem no dia seguinte, nem nas semanas ou nos meses subsequentes. Na verdade, eu achei a tal música semana passada. Uma joia que surgiu de uma gravação caseira em um quarto nos subúrbios do Brasil: uma jovem compositora, um teclado, um microfone e um celular. Uma nova vida criada de poucos elementos, num espaço pouco provável. Ao que parece, anos atrás, rádios independentes ajudaram a impulsionar artistas como ela. Então, existe uma ligeira chance de eu não estar louco.
Mal posso esperar para trazer essa história nas próximas páginas da revista. Então, melhor não dar spoiler. Mas é curioso, não é? Ha, ha, ha! Levei esse tempo todo para achar a música que ajudou a começar tudo – e eu trabalho no ramo há mais de dez anos! Dá pra acreditar? Tem coisas que, se a gente contar, ninguém acredita.
Porém, se demorei para achar a música, ao menos a encontrei. Já não posso dizer o mesmo do rádio. Quando despertei, na tarde daquele mesmo dia, não havia nada ali sobre a mesa. Meu estômago roncava de fome, era hora do almoço, mas eu insistia na busca. Revirava meu pequeno quarto do avesso, pensava se alguém não teria invadido minha casa, cogitava até se eu mesmo não teria sumido com o rádio à noite – afinal, nem todo sonâmbulo sabe que é sonâmbulo.
Mas, não. Nada. Absolutamente nada. Você também é daqueles que acha que o nada não pode existir, não é? "Sempre tem que haver alguma coisa". Não seja tão cético. Um dia, você vai acordar e vai tentar buscar seus sonhos – aqueles sonhos que você lembra com toda força – e eles não vão estar lá. Então, relaxe. Essas coisas acontecem.
E eu estou aqui para provar isso. Nunca mais vi o tal radinho. Quer dizer, hoje temos a internet aí para pesquisar nossas músicas e nossos gostos, mas... aquele radinho. Eu me formei, namorei, casei, separei, casei de novo, morei em outras casas e nunca mais. Nunca mais ele apareceu.
"Legal", você diz. Aí você me pergunta: "E cadê a Perfeição? Era o rádio, era a música, era a luz amarela do poste?".
Não, nada disso, meu caro. A Perfeição é saber que existe alguém, neste momento, dando vida a uma ideia que só existe na sua cabeça. Uma ideia que te preenche, que dança sobre o piso de sua mente, aproveitando todos os espaços, sem sobrar nem faltar.
Tem alguém dando vida a isso neste exato momento! E agora acho que consigo responder. Foi por conta de um poste que eu decidi começar a buscar artistas e falar sobre suas obras.
Não é apenas porque eu gosto de música, mas porque eu quero responder àquelas mil dúvidas que se abriram diante de mim, naquela distante madrugada. E eu quero, também, iluminar um pouco o caminho de outras pessoas. Gente que, como eu, se deparou com acordes morando na mente e precisa, urgentemente, ir lá e oferecer um cafezinho, botar o papo em dia, saber como estão, de onde vieram.
E é por isso que escrevemos aqui – eu e outros colegas. Para dar espaço a essas visitas que pairam pelos céus na busca de um lugar onde repousar. Aqui, cada edição é uma luz amarela, acesa para quem ainda não sabe que vai virar a esquina e mudar a vida de ponta-cabeça.
Afinal, a Perfeição não costuma avisar quando vai bater. Ela simplesmente entra e, quando você chega na sala, ela já está lá, acomodada no sofá. Nós é que precisamos ser receptivos. Mesmo quando nos trazem estranhos presentes.
Resta aceitar e dizer: parabéns a nós!











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