Tonfil em dissonância: entrevista exclusiva
- Clara Mello

- 6 de mar.
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Por Clara Mello, 06/03/2026

No coração do Sertão do Pajeú, onde a rima e a perspicácia são respiradas como ar, nasceu Antônio José de Lima Filho. Hoje o Brasil o conhece como Tonfil: neto do lendário repentista Louro do Pajeú, herdeiro da família Marinho e uma das vozes mais precisas da nova geração pernambucana. Ele nunca planejou ser cantor. Queria ser crítico de arte, cursou Jornalismo e via a música apenas como hobby paralelo aos estudos de Artes Visuais. Mas o destino, como ele mesmo costuma dizer, “pediu seu lugar”. Hoje ele conta com dois discos densos e uma carreira em ascensão. Nesta conversa exclusiva, Tonfil abre o jogo com Clara Mello sobre herança, escolhas, o conceito de Moldura e o que significa, hoje, ser artista nordestino sem abrir mão da substância.
Dissonância: Você nasceu Antônio José de Lima Filho, mas o nome Tonfil surgiu ainda na infância. Como foi o processo de assumir esse nome artístico e em que momento você percebeu que a arte seria o seu ofício definitivo?

Tonfil: Pois é, meu nome mesmo o Tonfil, derivando de Antônio José Lima Filho, o primeiro e último nome. Mas minha família sempre foi muito chegada a referências e também a reverências a figuras irreverentes. Então, Henfil também é uma das referências desse nome, Henrique Filho. E eu, Antônio Filho. E aqui em casa, nas bibliotecas daqui de casa, sempre rolaram, dentre outras coisas, e dentre clássicos da literatura mundial e brasileira, rolavam também os clássicos dos gibis, dos quadrinhos. Então a turma do Pasquim, Ziraldo, Henfil, a galera toda, e também Angeli, também Laerte. Esses personagens, esses autores, esses artistas, sempre permearam nossas vidas. Então, as referências lá em casa eram muito fortes, em vários aspectos. E como o trabalho da gente sempre foi muito ligado aos trabalhadores, a cultura popular, a coisa do trabalhador rural, trabalhador da terra, então eu acho que essas referências são muito válidas. Eu agradeço muito hoje. Eu comecei a assumir esse nome, esse título, enquanto, título não, né? Puta que o pariu, mas esse nome, enquanto artista, quando eu comecei a realmente a trabalhar, eu queria trabalhar como jornalista; eu ia trabalhar, ia ter um trabalho parecido com o de Henfil, inclusive, porque eu queria trabalhar como jornalista, como crítico de arte, como crítico de música, uma coisa por aí, sabe? E eu já gostava de..., eu gosto sempre de um nome só. Eu gosto de nomes únicos. Então, foi uma coisa que facilitou muito, para ser também, não reconhecido, mas identificado, porque às vezes tinham nomes que pareciam muito uns com os outros. E eu achava difícil ter um nome que parecesse com Tonfil. Só Henfil que também trabalhava em outra categoria, já também não estava mais aqui. Eu vi que a arte seria meu ofício definitivo antes da música, inclusive, porque quando eu fiz o curso de jornalismo, eu queria ser crítico de arte, depois entrei no curso de Artes Visuais, e eu já cantava há um tempo. Só que eu achava que cantar seria uma coisa que ficaria mais ao lado, assim, que teria outras coisas centralizadas, mais centralizadas, como o curso de jornalismo mesmo. E foi com o tempo. Eu estudando, ia fazendo o curso de artes visuais, e eu era estagiário de jornalismo. E eu fui convidado por Dominguinhos e por Chico Bezerra para cantar no disco deles, uma música inédita. Então, eu não poderia deixar de aceitar um convite de Chico Bezerra, um compositor maravilhoso de tantas coisas lindas, e Dominguinhos. E depois desse disco, os shows foram aumentando um pouco mais. Então, eu fui vendo, fui valorizando mais esse meu lado, que eu já fazia, mas que tava um pouco, eu deixava sempre um pouco mais relegado. Mas eu creio que esse nome, Tonfil, mesmo eu não trabalhando com arte ativamente, não sendo uma coisa, uma profissão, como hoje, eu trabalho na música, eu acho que eu seria chamado de Tonfil do mesmo jeito, por causa dessas miragens que o povo aqui em casa tinha, essas miragens literárias, essas referências. E eu agradeço muito, gosto muito disso.
Dissonância: Sendo neto de Louro do Pajeú e vindo da família Marinho, como essa "genética vocal e sonora" e a tradição da rima do Sertão do Pajeú atravessam o seu canto hoje em tempos modernos?

Tonfil: Realmente, eu não sei como se atravessa dentro dos séculos, como é que se chega aos tempos modernos, uma coisa que é tão natural e que acontecia tão espontaneamente, como é o repente, como é a poesia, e a noção da perspicácia, né? Então, São José do Egito mesmo, minha cidade, minha terra natal. São José, ele não só tem a cultura da rima e da métrica, apesar de ser, em boa parte, a forma principal que as pessoas expõem suas poesias, dentro desse formato de poema. Mas São José também, ele é muito rico nas respostas rápidas; em você responder, eu vou chamar aqui de ligeireza, né, de você ter respostas rápidas pra tudo, tudo vira motivo para fazer poesia. Então, eu acho que nas minhas apresentações a forma que eu trago e me refiro a essa herança, esse legado, eu acho que é bem forte, porque a maioria das composições e a maioria dos poemas, eu coloco alguns poemas dentro das apresentações, alguns poemas meus, alguns poemas de alguns poetas do Pajeú, que é a minha região, e, eu acho que sempre vai atravessar minha obra, o lugar, o meu lugar. Quanto mais longe eu vou, mais perto eu fico, é uma coisa que eu já disse isso também em outras, outras entrevistas, porque a gente cantando o lugar da gente, como diz Fernando Pessoa, a gente cantando o lugar da gente, a gente tá cantando o mundo. E sempre está presente no meu palco, sempre está presente nos meus tabulados a força de São José do Egito, a força do repente. Minha avó Helena Marinho, filha do Águia do Pajeú, chamado, ou chamado Águia do Sertão, Antônio Marinho do Nascimento, ela dizia que essa coisa da gente cantar, a gente tinha puxado a ele, Antônio Marinho, que tinha uma voz boa, uma voz que cantava. Ele também falava muito bem, era uma pessoa muito leitora. E eu fico imaginando como é interessante a gente trazendo a memória vocal também para os tempos de hoje, quando eu canto hoje às vezes com os melhores equipamentos ou nos melhores palcos; e eu fico às vezes tentando fazer uma ligação com as pessoas que pareciam com nossas vozes, das nossas linhagens anteriores, como deveria ser. Então, às vezes é como, não deixa de ser uma responsabilidade de você estar trazendo uma certa antiguidade para aquilo novo que você está trazendo.
Dissonância: O disco Moldura (2022) levou alguns anos para ser concluído, passando por burocracias de edital e uma pandemia. Esse tempo de espera e as mudanças de repertório (já que você mudou o setlist três vezes) mudaram o conceito final do álbum?

Tonfil: Não, interessante que não mudou o conceito final do disco, não. Talvez tenha mudado o nome, porque o nome do disco seria "Tonfil". Seria um disco homônimo. Não teria outro subtítulo, não. Seria "Tonfil Moldura", não. Seria só "Tonfil". Mas, quando eu fui relocando algumas canções, fui colocando outras, aí eu fui vendo que tava ficando assim, uma escolha que, se não tivesse um, talvez um conceito título ali, fosse só "Tonfil", talvez eu tava, eu achasse que podia ficar meio aleatória a junção das músicas, sabe? Se eu não tivesse emoldurado de alguma forma. Então, eu botei um dos títulos de um dos títulos das canções, que é "Moldura", que é de Zeto, grande poeta de Canhotinho, interior de Pernambuco. Eu acho que foi o título da música que se enquadraria ao título do disco. Desde as questões estéticas mesmo, que eu também, enquanto artista visual, eu fico mirando nessas coisas, fico olhando essas coisas. E, eu já queria uma coisa meio azulada, meio barro, meio céu, meio terra. Eu já tinha uns conceitos meio renascentistas na cabeça, que eu gosto muito dessas, de ler sobre e de pesquisar sobre. Se você for ver, tem uma coisa meio monalisística nessa capa do disco, "Moldura". Então não mudou muito o conceito, não. Mesmo eu mudando algumas canções, às vezes, quando se vê, você muda o repertório três vezes, eu não mudei todo ele, tirei algumas, deixei outras, mudei de lugar algumas que eu tava pensando. Mas não mudei tanto, sabe? Eu acho que a maioria continuou ali. Eu só reloquei, mas também as que eu tirei, não fariam mais sentido. Às vezes você quer dizer outra coisa, às vezes passa tanto tempo pra você gravar, e por essas questões todas burocráticas, teve coisa de pandemia no meio, e às vezes você quer dizer uma coisa que, com três meses depois você vai gravar, você não quer mais dizer aquilo. Então, a busca pode ser outra, sabe? Mas o conceito era basicamente esse, era uma coisa, eu gosto do teor desse disco. Eu gosto da temperatura desse disco, eu gosto da produção do Juliano, é muito boa. A direção do Juliano é muito boa. E assim, é um disco que ele mescla muitas coisas, muitos estilos, muitos ritmos. Eu acho que a gente conseguiu emoldurar, deixar realmente ele assim, várias coisas dentro de um formato agradável.
Dissonância: A canção "Silêncio", gravada com Flaira Ferro, tem uma história curiosa sobre a captação de áudio, onde ela "cantou com o corpo". Como foi essa experiência de transformar a dança dela em som?

Tonfil: Essa canção Silêncio é uma canção do poeta Antônio Marinho, que é meu primo, um grande compositor. E Flaira Ferro, Flairoca, é uma querida, uma amiga nossa em comum, já tinha trabalhado com o Marinho em alguns trabalhos publicitários do governo do estado, outras coisas, de publicidade. E a gente se conheceu nesse meio mesmo, nesse meio de arte, eu e Flaira. Quando eu convidei Flaira para gravar essa música de Marinho, que ela gostou muito, e essa música, ela tem alguns recursos sonoros, algumas partes, alguns elementos bonitos de respiração, alguns elementos que podem ser dançados com o corpo. E quando Flaira estava fazendo isso, a gente estava achando que o aquário pudesse estar tolhendo alguns movimentos que seriam necessários para a boa execução, para a boa gravação da canção. Então, a gente estava querendo que essa música tivesse toda essa, essas contrações e relaxamentos, que era a música, que a atmosfera da música pedia. Aí pronto, Juliano, tem hora que Juliano pede ao nosso técnico de som lá, que coloque dois microfones, um do lado do outro, ali dentro do aquário, dentro do estúdio, para que ela se mova parecido com o que ela se move no palco ao vivo, para que se mescle mais a dança da respiração com a dança da canção cantada. Então, como a própria Flairoca diz, uma vez ela já disse isso na entrevista, a Flaira disse que, quando descobriu essa migração da canção dançada, como ela era bailarina de frevo, para canção cantada, quando ela se viu cantora, ela disse que viu que cantar era dançar com outra parte do corpo. É lindo isso, né? Essa resposta dela é muito linda. Então, eu acho que a gente só louva a existência de Flaira Ferro, a existência dessa gravação, a existência de Antônio Marinho e de todos os poetas em geral, porque quando essas coisas se mesclam, elas geram supernovas maravilhosas.
Dissonância: Qual a mensagem do single “O Que Mereço”?

Tonfil: O single que mereço, na verdade, ela virou single depois, porque ela era uma das canções que constaria no disco "Moldura". Mas nessa coisa de música vai, música vem, de troca de repertório, essa foi uma das canções que seria uma das canções de frente do disco, mas ela terminou ficando de fora, por outras questões. Zélia Duncan também ia gravar na mesma época, então, a dela terminou saindo antes. A gravação dela terminou saindo antes do que a minha, então a gente decidiu deixar essa canção pra depois, e deixamos. Ela depois saiu em single, e eu acho linda, é um presente de Juliano Holanda, essa canção, com várias outras coisas dele. E gosto muito de cantá-la, gosto muito da mensagem que ela traz. E eu acho que a mensagem que essa canção traz é isso, assim. Eu acho que a gente, acho que é muito, como dizia, o Davi Histed, é difícil explicar poema, é desnecessário até. Ele é o que veio sendo. Então, acho que “O Que Mereço” é isso. E essa canção, ela fala exatamente disso, de ser necessário, somente necessário e extraordinário é demais. Eu acho que a gente tendo o que merece, eu acho que, eu lembrei até de outra, de outro aforismo aqui do meu avô, que era o Lorival Batista, perguntaram a Lorival se ele era feliz, ele disse: "Sim, porque eu só vou atrás do que me falta, o que sobra não me interessa". Então é mais ou menos isso. Só quero o que mereço. A mensagem que essa música traz é certeira, cirúrgica e explícita.
Dissonância: Qual mensagem é a espinha dorsal de sua obra como um todo? E como você quer ser lembrado?

Tonfil: É difícil falar sobre espinha dorsal de trabalho como um todo, qual a mensagem que o trabalho passa como um todo, quando ele ainda está sendo feito. Quando ele ainda está sendo trilhado até em aspectos iniciais. Porque eu ainda tenho muita coisa a fazer, espero que, mas também só quero que mereço (risos), mas eu acho que temos ainda muitas coisas a trilhar. Então, para designar e determinar qual a espinha dorsal do trabalho, eu acho que essas espinhas dorsais, elas vão se multiplicando, elas vão virando uma, vão virando várias, de acordo com os momentos de cada epifania, de cada trabalho artístico. Então, eu não sou muito determinista para dizer isso, qual a espinha dorsal do meu trabalho. Momentaneamente, vibrar, trazer e louvar a arte como um todo, em todos os seus aspectos, em todas as suas plataformas, em todos os seus nuances, suas nuances e isso, seus suportes. Mas se é para deixar alguma mensagem, também não sou muito de me preocupar com essas coisas, o que vou deixar, qual a mensagem positiva que vou deixar, não sou muito de me preocupar com essas coisas não. Não sou tão determinista nessas coisas não, nem preocupado com isso, mas eu espero deixar uma mensagem de trabalhar com todas as possibilidades da arte. Eu acho que essa é a minha principal mensagem. Eu acho que uma mensagem de não se fechar às experiências de vida, em experiências artísticas. Eu acho que quando a gente se permite a isso, eu acho que grandes coisas podem surgir daí.
Dissonância: Você mencionou planos para um single infantil, buscando fazer algo "fora da curva". O que motivou essa incursão pelo universo lúdico das crianças?

Tonfil: Na verdade, eu sempre gostei muito de canções de roda, de canções de teatro, canções de fábulas. A gente, na minha casa sempre costumava muito cantar canções infantis. E sempre rodou os discos lá em casa, os Saltimbancos, a Arca de Noé, a Turma do Balão Mágico e outros. Fábulas, aquelas fábulas que vinham em vinil, aquelas coisas todas. A gente tinha todas essas coleções. E canções de roda, principalmente. Minha mãe, minhas tias, minha avó, sempre foram pessoas que sempre cultivavam muito essas canções, essas memórias infantis, das canções lá em casa. Eu acho que juntou todas essas vontades com algumas pessoas que eu fui conhecendo ao longo do caminho, agora na trilha da música já. Pessoas que têm um trabalho muito bom, muito marcante, muito forte. E nesse caminho, eu fui encontrando pessoas que trabalhavam com coisas do meio ali, na musicalização infantil, com a música como recurso pedagógico para socialização. Então, tudo isso foi se mesclando e a gente tá preparando uma coisa linda que até o meio do ano, vocês vão curtir bastante.
Dissonância: Para os jovens artistas que desejam viver da arte no Nordeste, qual a importância de "ter confiança na substância" do que se produz e saber "entrar e sair dos lugares", como você costuma aconselhar?

Tonfil: Quando eu falo assim da importância de se ter confiança na substância, no que se faz, no que se produz, eu acho que independente da categoria musical, eu acho que independente do estilo que você cante, que você traga, eu acho que sua arte, ela deve estar compromissada com, comprometida com a verdade. A verdade e o melhoramento das coisas. Eu acho que a gente tá comprometido com o melhoramento das coisas, o mundo já é tão complicado, já é tão complexo. E a arte, a arte, ela não, obviamente, que a gente sabe que a arte não está só para ser bela ou trazer só o agradável. A arte, ela também está para incomodar. Mas quando ela traz isso também, quando ela traz o incômodo, quando ela traz o afago, a arte, ela tem que ser verdadeira. Ela tem que trazer toda substância que a gente produz dentro de si. Eu acho que o mundo tá precisando de essências. E eu acho que é isso, eu acho que a confiança no que a gente faz é a principal movedora das coisas, de boas coisas. E a gente conhecendo a nossa essência, ou pelo menos tentando conhecê-la, a gente sabe entrar e sair dos lugares, a gente sabe onde a gente se demora, a gente sabe onde a gente se encurta, onde a gente passa pouco, onde a gente passa mais tempo, né? E isso faz com que a gente tenha conhecimento. Se a gente tendo conhecimento da essência, faz com que a gente confie também na intuição. Então, a gente tendo esse diálogo com a intuição, com a essência da gente, dificilmente as coisas dificultam além da conta na vida. Obviamente elas vão dificultar, porque a vida é assim, subir e descer ladeiras, como diz PC Silva, mas eu acho que facilita muito quando a gente confia na nossa essência, na nossa substância, e trabalha com a verdade.

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