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Persiste um Aroma

Um Conto de Hélio Silva

hélio silva - persiste um aroma

Cecília cuidava do amplo jardim de seu sítio. Seus cabelos começavam a ficar brancos, mas suas mãos ainda estavam firmes para este trabalho. Cecília era uma mulher de sorte. A vida tinha sido boa com ela, lhe dera boas condições materiais, boa saúde e um casamento de muito amor... Enquanto a sorte durou. E o jardim era prova deste lado bom da vida. Um testemunho, que Cecília precisava acordar cedo para manter sempre firme e sempre belo. Sempre, de modo que não se quebrasse novamente.


Para isto, contava com a companhia de Dalva, não apenas uma criada, mas um elemento fundamental no florescer do jardim. As duas, agora, pensavam sobre qual seria a melhor posição para o vaso de orquídea que acabara de chegar. Cecília decidiu-se por deixá-lo bem na metade do caminho entre sua casa e o riacho que passava ao fundo do sítio. Descendo a pequena elevação da casa, levaram o vaso para lá junto a um suporte de ferro.


Cecília recuperou-se do movimento, respirou fundo as notas de baunilha que a nova planta lhe entregava, enquanto Dalva ia buscar equipamentos de jardinagem. Estava um dia bonito, com um suave sol de outono por entre as árvores. Uma sensação boa parecia invadi-la, mas não durou. Surgiu um vento estranho e discreto, cortando o ar pela direita e lhe gelando os cabelos. O arrepio de Cecília a fez logo olhar para o lado. Nada.


– Que vento, hein... – comentou com Dalva, que retornava com pazinha e luvas nas mãos.

– Ah, essa brisa? – a outra respondeu, sem sentir nada demais – Nada como essa brisa de outono!


Cecília ainda não conseguia prestar atenção no que Dalva dizia. O vento tinha trazido algo. E ela foi atrás. Seguiu em direção ao veio de água e seus ouvidos indicaram um pio triste e desolado. Encontrou um pequeno pardal tremendo no chão, sem força, e rapidamente ajoelhou-se para pegá-lo. Chamou por Dalva, que já vinha em sua direção. Envolveu o frágil pássaro com delicadeza, a mesma que tivera anos antes com as almofadas do marido e falou como pensava naquela época:

– Vamos levá-lo para casa! Acho que ele ainda tem chance.


As duas correram para a residência, subindo a elevação. Deixando para trás o vaso de orquídea, oscilando ligeiramente sobre um suporte de ferro, com o vento que se intensificava, sorrateiro.

Cecília teve certa dificuldade no começo, mas com ajuda de Dalva, elas deram um jeito no pequenino. Foram três dias de cuidado, observação, comida e até fizeram uma ligeira limpeza nas asas do animal. Pensaram ser esta última a causa da queda do pardalzinho, mas não encontravam uma explicação satisfatória. Nem precisariam disso, já que o pequenino se recuperava a olhos vistos.


Com o raiar do dia, Cecília já estava a acariciar o pequenino, transferido para uma casinha de madeira na porta, perto do quintal. E o jardim floria como nunca. Cecília voltava a sentir esperança no futuro e chegou a comentar suas impressões com Dalva, enquanto elas tomavam suco e observavam as plantas:

– Finalmente, acho que estou conseguindo fazer algo bom... Deixar algo de útil para o mundo, sabe?

– Ora – a outra se surpreendeu com peso nas palavras ouvidas. Procurou sorrir para melhorar o clima e disse: – Eu fico feliz pela senhora, mas a senhora está muito melancólica. Há muito o que se fazer nesta vida!


O riso de Dalva era otimista como a manhã daquele outono. Acreditavam que, no dia seguinte, o pardalzinho estaria pronto para voltar à natureza. Lembrando-se disso, elas foram lá observar o coitado na pequena moradia posta perto da porta – em convite ao voo.


Entretanto, encontraram-no de olhos fechados, no fundo, nas sombras. Chamaram por ele. Nada. Logo, estava claro que seu peito se mexia menos e menos, até liberar o último ar pelo bico aberto.

Aquilo nublou completamente o dia de Cecília. Ela pegou o pássaro frio nas mãos e, com ajuda de Dalva, escolheu o local, perto do riacho onde ele fora encontrado, a poucos passos do vaso de orquídeas. Enquanto Dalva buscava a pá, Cecília desatava a chorar. Tentava ser forte como anos antes, mas não era possível. Era como se ela tivesse Antônio novamente em suas mãos. Agora, tão pequeno, mas tão bondoso, tão amoroso, tão frio, tão... ido. Inexplicável.


O vento bateu novamente, enquanto elas faziam o sepultamento do pequenino visitante. Era aquele mesmo vento. E, desta vez, não contente em esfriar a pele de Cecília, ele fez tremer mais aquele suporte de ferro. O vaso de orquídeas bambeou e, não podendo resistir, caiu com um som oco, partindo-se contra a maciez da grama e quebrando, com a dobra, o caule da orquídea.


Ver o vaso ao chão fez Cecília desatar em nova onda de choro. Um choro forte, profundo, escondido por entre segredos que apenas às minhocas é dado conhecer. Um choro que a dobrou de joelhos sobre o gramado. Dalva a consolou, num abraço forte e fraterno.

– Nós trabalhamos tanto... Tanto... Pra isso?! – Cecília se perguntava, entre lágrimas.

– Trabalhamos, sim – Dalva tentava acalmá-la – Mas é claro que não foi para isso...

– Então para quê, Dalva? – a pergunta interrompia a conversa e vinha trêmula, do fundo do âmago.


Dalva abriu a boca, mas não possuía resposta. Olhou para o vaso rachado e para as folhas que se moviam, com o vento. Um movimento vindo do nada. Um vazio em movimento.


Cecília não compreendia. Balançava a cabeça. Ela não era forte como pensava. Nada era tão forte. Mas ainda fazia sol, os pássaros ainda cantavam sobre a copa das árvores. E as flores, tão frágeis, ainda brilhavam como do outro dia.


Cecília não era tão forte. Mas, com Dalva, conseguiu se levantar. Foi para casa, tomou um bom banho. Deixou as últimas lágrimas escorrerem. E sentiu, entrando pela janela, um persistente e leve aroma de baunilha.


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  • Hélio Silva

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